O Almanaque da incompetência


Pedro Candeias e João Silvestre explicaram, no tribunal expresso, o que ficou nas entrelinhas do artigo do Presidente Bruno de Carvalho:


1. “Tempos houve em que para alguns bastava uma reunião no escritório de presidentes ou altos administradores de bancos para que compras milionárias de jogadores fossem feitas em total desrespeito pelos interesses dos clientes em geral e da solidez financeira dos bancos em particular” Bruno de Carvalho refere-se à estreita relação que existia entre Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, e Amílcar Morais Pires, antigo administrador financeiro do Banco Espírito Santo. A 30 de maio de 2015, o Expresso escreveu este artigo que especificava a natureza da relação entre estes dois homens: “Foi com ele que Vieira montou muitos negócios e chegou a ser um dos maiores devedores ao BES. No final, as suas empresas safaram parte dos empréstimos”.

2. “Quem já se esqueceu da célebre história do pagamento de um clube às Finanças com "ações" que não valiam quase nada, ou melhor, essas ações serviram de garantia para pagamento futuro? Relembro a todos que, na altura, o deputado do PCP Lino de Carvalho acusou o governo de ter "tido um tratamento desigual e de favor" em relação a esse contribuinte” A história remonta ao governo de Durão Barroso. O Benfica pagou €4 milhões ao Fisco com ações que não estavam cotadas em bolsa. Uma opção aceite pelas Finanças, então sob tutela da ministra Manuela Ferreira Leite, que motivou críticas no Parlamento. Nomeadamente, por Lino de Carvalho, deputado do PCP entretanto falecido.

3. “E todos estes negócios que têm vindo a público, desde o Paraguai até ao Brasa, que até levaram a eurodeputada Ana Gomes a pedir a investigação da PGR?” Em causa, para BdC, estão as transferências de Francisco Vera, avançado paraguaio (está explicado o Paraguai), e de Patric, defesa brasileiro (a explicação segue adiante). Francisco Vera foi contratado ao Rubio Ñú, do Paraguai, por €2,8 milhões, e entrou diretamente para a Equipa B, pela qual disputou três jogos e regressou à América do Sul. A transação foi feita com as assinaturas de Luís Filipe Vieira e Carlos Gamarra, antigo central do Benfica. Um jornal daquele país, o “Hoy”, escreveu que o negócio entre Benfica e Rubio Ñú tinha contornos estranhos, até porque “o futebol paraguaio reúne as condições para transações fraudulentas, como a evasão fiscal e a lavagem de dinheiro”. A reportagem adiantava, também, que Vera teria desistido do futebol: “Vai dedicar-se a um pequeno negócio de venda de equipamentos desportivos na ‘Cuidad del Est’, segundo a investigação do programa ‘La caja Negra’”. Francisco Vera desmentiu que se tivesse retirado. Ana Gomes enviou uma carta à PGR e à PJ a pedir que este caso fosse investigado.

O caso de Patric remete para um clube chamado Brasa Futebol Clube ao qual o Benfica pagou €900 mil euros, em três tranches, para contratar o defesa. Problema: antes de ir para a Luz, Patric jogava no São Caetano, pelo que o Brasa Futebol Clube serviu de intermediário, ou melhor, de barriga de aluguer para este jogador - não há registos de quaisquer jogos disputados pelo Brasa. Numa reportagem do jornal Record, o dono deste emblema-fantasma, Hélio de Athayde, explicou como as coisas se processaram. “Criei um clube para fazer negócios bem feitos. Patric foi nosso único jogador vendido ao Benfica. O Giuliano Bertolucci [empresário] foi o responsável pelas negociações”.

4. “Na realidade das "cigarras", que considero paralela mas que para uns é a que vivem, financeiramente, as vendas de futebol podem resumir-se a negócios em que sai um jogador por 25 milhões mas, do mesmo clube ou agente, tem de entrar outro por 22 milhões. Dentro desta lógica, quem o faz - e se virmos bem fá-lo muitas vezes - consegue sempre dizer que tem grandes vendas, ver os seus ativos crescer, consequentemente melhorar a situação do seu balanço e ver os seus rácios financeiros reforçados. Mas, no final do dia, o resultado é a mera entrada de três milhões” Esta é simples: Nicolas Gaitán foi vendido por €25 milhões; Raúl Jiménez, veio a saber-se depois, teve um custo de €22 milhões para o Benfica que avançou para a compra dos 100% do passe, o que faz dele a transferência mais cara da história do clube encarnado. Gaitán foi para o Atlético de Madrid, Jiménez viera do Atlético de Madrid, ambos são representados por Jorge Mendes.

5. “Falam de VMOCS e que isso seria um perdão de dívida. Vamos relembrar que VMOCS significa Valores Mobiliários Obrigatoriamente Convertíveis em Ações. Isto significa que é um instrumento financeiro que, no prazo de maturidade, transformar-se-á em ações”. Complicado? Nós explicamos. As VMOC, como Bruno de Carvalho diz, são valores mobiliários obrigatoriamente convertíveis em ações. Na prática, são dívida que no final, em vez de ser paga, é transformada em capital. Ou seja, o devedor (a SAD neste caso) não paga e passa a ter o credor (o banco como acionista). Para evitar este desfecho, a SAD do Sporting acordou com os bancos a extensão do prazo das VMOC na posse do BCP e do Novo Banco para 2026, o que foi apontado por alguns como um perdão de dívida. Na verdade, não se trata de um perdão (porque a dívida continua a existir) e apenas existiu um prolongamento que, no máximo, pode ser visto com um refinanciamento. O caso relatado sobre o Benfica não é exatamente igual: o Novo Banco tem uma participação a rondar 8% na SAD que vem dos tempos do BES e que não tem diretamente a ver com as obrigações referidas que venceram em 2014. Há, no entanto, uma relação indireta entre as duas posições já que, como acionista, o Novo Banco (antes o BES) é simultaneamente credor e devedor.

6. “Uns insistem em não as cumprir [regras], não apresentando as suas contas consolidadas. Querem confundir os menos atentos entre consolidação das contas e o consolidar as contas de apenas algumas empresas, por exemplo a SAD, e empresas detentoras da sua TV, até porque, para além da confusão de terminologias, ainda se consegue que não se perceba bem o que vem de onde”

A consolidação de contas é fundamental para se ter um retrato fiel da situação de um grupo de empresas. Quando há várias empresas relacionadas, um processo de consolidação deficiente ou parcelar pode traçar retratos completamente diferentes da mesma realidade. A consolidação pode ajudar a diluir dívida ou prejuízos, ao mesmo tempo que pode permitir transformar em rentáveis operações que não o são. Aquilo que Bruno de Carvalho insinua é que há consolidação apenas entre a SAD e a televisão do Benfica, permitindo apresentar contas muito mais favoráveis.

Compreendo que o Presidente do Sporting Clube de Portugal não o tenha feito directamente. Afinal, Nuno Saraiva tem colocado "os pontos nos is" e já o conseguiram calar por 15 dias. Há por aí muito funcionário lampião que fala o que quer e inventa o que lhe apetece e a FPF não os castiga!
Voltando ao tribunal expresso: Pegaram nos 6 pontos que Bruno de Carvalho evidenciou e explicaram como para miudos se tratasse, porque quando se fala em benfica, o melhor é explicar tudo senão corremos o risco das ideias serem manipuladas pela comunicaçao social cá do burgo. É o país que temos...





Comentários