A Entrevista de Bruno de Carvalho ao Record


Foto: Paulo Calado

A entrevista dada por Bruno de Carvalho aos jornalistas Bernardo Ribeiro, José Ribeiro e Alexandre Carvalho do Record.

RECORD - Na passada terça-feira congratulou-se com o anúncio da candidatura de Pedro Madeira Rodrigues. Não fez, enquanto presidente, qualquer comentário e por isso pergunto ao candidato Bruno de Carvalho: o que achou do discurso do seu opositor?
BRUNO DE CARVALHO – Acho que começou cedo e vai ter tempo para concretizar uma série de coisas. Penso que a intervenção teve poucos minutos e não lhe foi dada uma consistência que eu conseguisse tirar de lá muitas ilações como sportinguista e agora como candidato. Foi um conjunto de chavões. Não sei se se lembram das minhas duas anteriores apresentações, muito longas e altamente maçudas, lembro-me de me terem dito isso. Enfim, sou conhecido pelo explicadinho, porque acho que com coisas sérias não se brinca e em cinco minutos não se consegue dizer ao que se vem. Do que ouvi, lembro-me de ‘o modelo de gestão está esgotado’. Isto é um chavão, porque nada foi acrescentado.

Vamos lá: quando entrei, a equipa vinha da pior classificação de sempre, sem conseguir ir à Europa. Não íamos à Champions há uma série de anos. Passámos para segundo lugar e só não fomos todas as vezes à Liga dos Campeões porque toda a gente viu o que se passou nos jogos com o CSKA. Entrámos no top 10 de clubes com mais associados, agora muito próximo do top 3; assistências médias eram de 20 mil, duplicámos; pessoas que não levantavam a cabeça agora vivem o Sporting de cabeça erguida; finalmente alguém está a colocar património no clube e na SAD sem aumentar dívida. Qual é a parte do modelo de gestão que está esgotada? Aposta na formação? Mais? Quer-se o quê? Um onze de jogadores vindos da formação e sermos campeões? Diziam que eu andava a matar a formação do Sporting. Vão ver que lugar ocupam, na classificação, as equipas da formação. É preciso tempo para recuperar muita coisa que se andava a fazer de errado. Modalidades? Temos plantéis que são considerados por toda a gente como dos melhores. Esqueçam a equipa de hóquei do Ramalhete e do Livramento, porque isso é o suprassumo; esqueçam os ‘Cinco Violinos’, porque isso é suprassumo; esqueçam a equipa de andebol pentacampeã. Olhemos aos últimos 20 anos, parece que estamos sempre a bater no ceguinho, mas não vamos associar uma coisa à outra. Temos dos melhores plantéis de sempre. O que está esgotado?

R - Pedro Madeira Rodrigues também disse que Bruno de Carvalho é sinónimo de títulos para os rivais…
BC – Ele conseguiu ir buscar os chavões mais utilizados nos blogues de benfiquistas, o que acho extraordinário num candidato às eleições do Sporting. Aliás, vou dizer-lhes que a primeira coisa que me passou pela cabeça quando vi o Benfica perder com o Marítimo foi: vão aparecer candidatos. Isso diz tudo. É das frases mais tristes e sem sentido que já ouvi na vida. Neste momento já cometeu vários erros. O primeiro foi ser apresentado por um benfiquista, o dr. Júdice, o que a mim me fez uma confusão descomunal. E utiliza logo a primeira coisa reles, que é: um grande candidato que tem estabilidade familiar. Ficaram logo apresentados, quer o dr. Júdice quer o candidato. A segunda é dizer que sou sinónimo de títulos para o rival, já para não dizer que só quis ser candidato depois da derrota de um rival.

Tirando isso, que faz parte da personalidade da pessoa, em termos de caráter utilizar a família e os títulos que um rival tem ganho, é das coisas mais baixas que tenho visto na minha vida. Só não digo que foi o mais baixo porque estive nas eleições há seis anos e isso, sim, foi mesmo do mais baixo possível. Preparei-me dez anos para ser candidato a presidente do Sporting. Nas últimas duas eleições ele entrou em listas. Ora, quem quer ser presidente, quer sê-lo, ponto. Um líder não é para ser liderado. Eu, desde que acabei o meu curso, lidero! Já estou como o meu tio-avô: não gosto de ser liderado, é uma coisa que me cansa. Ele não gostava de ser raptado e eu não gosto de ser liderado. Madeira Rodrigues apresentou-se em várias candidaturas e finalmente lembrou-se que queria ser presidente. Perfeito. Não precisamos é de entrar por caminhos que não fazem sentido e que são chavões de blogues de rivais.

R - Está a insinuar que a candidatura de Pedro Madeira Rodrigues pode estar a ter o apoio do Benfica?
BC – Não. Vamos separar as águas. Digo que ele foi apresentado por um benfiquista, que decidiu avançar depois de uma derrota do Benfica, que utiliza chavões decalcados de blogues que só me atacam, a mim e à minha família, mas isso pode ser tudo uma coincidência. Para acabar este assunto dos ataques quero explicar que o presidente do Sporting colocou três processos a sócios que disseram: "entra pelos quartos da Academia e bate nos miúdos; sei que roubou; vi o presidente comprar um cofre e a pagar em dinheiro 3 mil euros para guardar o dinheiro que roubou". Eu fui a tribunal e disse: sr. dr. juiz, ou este senhor tem razão e eu tenho de ser preso, já!, porque sou ladrão e bato em menores, ou este senhor tem de ser castigado. Quando vou para tribunal abro os dois leques, porque se andar a fazer aquilo de que me acusam não posso estar livre, tenho de ser condenado! Mas depois fez-se disto uma grande fita a dizer que eu punha sócios em tribunal. Pus os sócios e a mim! Porque ao levar isto para tribunal também me pus lá a mim.


R - Também foi acusado de ‘fugir’ nos maus resultados e de dar voltas olímpicas quando ganha…
BC – Gosto dessa. Já tivemos um jogo em que perdemos com uma equipa que não é da Liga, e que eu, sem ninguém se aperceber, me coloquei à frente de centenas de sportinguistas. Esse senhor pode dar-me lições musicais, agora de dar a cara? Não! Não sou é hipócrita e aquilo que faço não são voltas olímpicas. Nesse jogo fiquei tão agradecido por ver aqueles milhares em Belém, 90 minutos a acreditar, que fui lá por eles, não por mim. É a tal história de ter apertado a mão a mil e duzentas pessoas num jantar. Sim, fi-lo. Por eles, não por mim. Mas sou alguma barata para ter sangue frio? Acabo de perder um jogo em que era absolutamente vital para o Sporting estar bem, e como foi reconhecido por todos, inclusive pelo treinador, foi um jogo péssimo, e queriam que eu fizesse o quê? Agora, sempre que houve alguma coisa, o primeiro a estar lá foi o presidente. Comigo a presidente, ninguém faz nada aos meus jogadores e aos meus treinadores. E olhe que este exemplo que estou a dar, de pessoas enfurecidas, já aconteceu este ano e muitas vezes desde que sou presidente. Por isso, esse senhor escusa de usar chavões, porque se há coisa que consegui fazer é que no Sporting mando eu.

R - Madeira Rodrigues será o seu único opositor ou aguarda por mais candidaturas?
BC – Não sei. Como candidato, acho que é sempre salutar haver muitos e bons. Não permito é que ataquem a minha família e a minha honra. Atacarem a minha família e dizerem que sou sinónimo de títulos do rival é atacar a minha honra, é desonesto intelectualmente e reles. Podem dizer-me que a questão dos títulos é factual. E então os outros presidentes que perderam os títulos para Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira? Só se lembram agora? Calma. É que ele pode dar-se ao luxo de estar a candidatar-se à presidência de um clube devido ao trabalho que foi feito nos últimos quatro anos, caso contrário podia não estar a fazê-lo porque este clube podia já não existir. Isso é que são factos. Estarmos a lutar, como estamos, pelo título é que é de valor. Saltar do ‘vou desaparecer’ para ‘candidato ao título a sério’ foi o que fizemos nestes quatro anos.

R - O que é preciso ter para se ser um bom candidato?
BC – Tem de se ter perfil, caráter, estômago, muito amor, paixão e loucura por este clube, ‘know-how’, capacidade de liderança acima da média, capacidade de toma de decisão muito grande, porque as solicitações são às dezenas por dia, ter capacidade de trabalho acima da média e projeto com princípio, meio e fim. Isso do ganhar, ganhar, ganhar está esgotadíssimo. Portanto, chego à conclusão que Madeira Rodrigues é ponta-de-lança. Porque com ele Jesus vai ser de certeza campeão. Sou eu que estou lá a mais porque tenho falhado os golos, tenho deixado as bolas entrarem… Como vem baratinho, é um bom ponta-de-lança. Isso é que é demagogia pura. ‘Venho para ser campeão, comigo é sempre a ganhar, sempre na frente’. Depende na frente de quê. Sou eu que tenho falhado? OK, está certo…

BRUNO DE CARVALHO: «SPORTING ESTÁ ISOLADO? QUEM LIDERA A LIGA?»

RECORD - Quais serão os pilares em que assentará a sua recandidatura?
BRUNO DE CARVALHO – Fui acusado de ser o homem das 120 medidas e isto tem de ser consolidado. Cumprimos, de facto, com as medidas que propusemos e agora há que consolidar tudo. Porque isso é fundamental para o Sporting. Fazer essa consolidação significa não ter de reiniciar tudo, porque, ao contrário do que se diz, o Sporting não está nada isolado. Vou aqui lembrar e desminta quem quiser: há uma reunião de clubes e creio que 32 dizem que vão apoiar um candidato à Liga. Fiz uma intervenção na Sporting TV, desde a África do Sul, a dizer que ao contrário desses clubes, o candidato que o Sporting iria apoiar seria o Pedro Proença. Quem ganhou as eleições? Foi o Pedro Proença.

R - Não quis dizer que o outro candidato era Luís Duque. Por alguma razão em especial?
BC – Ao contrário do que as pessoas pensam, tenho uma amizade com Luís Duque desde há muito tempo. Acho que ele fez mal em fazer o que fez mas não deixo essa amizade cair. Agora, defendi o Sporting de unhas e dentes naquilo que acho que foi uma afronta ao clube, que foi o ter avançado esquecendo essa amizade e nem ter vindo falar comigo.

R - Voltemos à questão do dito isolacionismo do Sporting…
BC – O Sporting foi e é um fervoroso apoiante do vídeo-árbitro. Está em testes, os quais critico porque já devia era estar implementado pelos cinco anos de testes na Holanda. Estou isolado? Propostas quanto aos fundos: o Sporting foi a grande voz nesta matéria e isto foi dito publicamente pela FIFA e pela UEFA. O que aconteceu? Acabaram. Mas não confundam as coisas, eu sou 100 por cento a favor de instituições financeiras credíveis, bem reguladas, que venham para o futebol e contribuam para que os clubes cresçam cada vez mais.

R - Já foi criticado por, entretanto, ter feito um acordo com a Traffic…
BC – Mas alguém leu esse acordo? Não tem nada a ver com fundos nem com compra de jogadores. Tem sobretudo a ver com um protocolo de colaboração, o qual se prende também com um clube que se chama Estoril. Para nós, o que nos interessa são boas parcerias. Se estamos a falar dos donos do Estoril, para nós está ótimo. Continuando: o Sporting era frontalmente contra o Vítor Pereira. Já não está lá. Muitas das coisas que estão a ser aplicadas pelo CA derivam das propostas do Sporting que, durante muito tempo, foram trabalhadas com a APAF. Então, concluindo, o Sporting está isolado? Porquê? Por causa do Benfica, FC Porto, Marítimo e Arouca?

BRUNO DE CARVALHO: «VOLTARIA A QUERER JORGE SOUSA NO DÉRBI»


RECORD - Tem consciência que a exigência em cima dos resultados desportivos será maior, caso seja reeleito?
BRUNO DE CARVALHO – Completamente, essa exigência vai aumentar até a partir de mim próprio. Mas já a fazemos agora. Repare numa coisa: há um fim de semana em que podemos estar um ponto à frente na classificação e ficámos cinco pontos atrás, por lances que foram claros para toda a gente e que nos prejudicaram. Mas se me perguntassem, um ou dois dias depois, que árbitro queria para o dérbi, responderia Jorge Sousa. Agora diz-me: mas já não está a cinco, está a mais. Pois, porque isto mexe com muita coisa. Mexe com o orgulho das pessoas, com a cabeça dos jogadores nos jogos seguintes, e recuperar tudo isto não é fácil. Os jogadores estão-se a borrifar para as intervenções que o presidente tem sobre outros clubes ou sobre a APAF ou o que seja. O que afeta é quando deixo de dar o corpo às balas e começa a sobrar para eles. Sempre que falo, as miras viram-se para mim e o meu balneário está calmo. Não sei se já reparou no lugar em que vamos, mas o alvo continuo a ser eu. Adoro.

R - A contestação também já chegou ao treinador em alguns momentos…
BC – Quando digo eu, digo eu e treinador. Já toda a gente disse que somos um e tenho muito orgulho em dizer que sim, que de facto nos damos muito bem. Agora, sublinho, ninguém aguenta mais quatro anos como os que tive e é por isso que digo que preciso do tal ‘exército’. Não posso continuar com este ritmo de desgaste. Os sportinguistas têm de dar uma ajuda clara, porque não posso, até por questões de saúde, continuar neste desgaste de Dom Quixote. Ou estamos todos juntos ou continuarei a fazer as coisas, mas de forma muito mais ‘soft’, porque a esse nível já me esgotei, mas não virarei a cara à luta.

R - Há algo que pense alterar na sua forma de ser e estar?
BC – Olhe, nisto que acabei de dizer. Se se refere ao sentar no banco, digo-lhe que não. Lá por fora, em Espanha e Itália, até sou elogiado por estar no banco, dizem que isso é que é o futebol real.

R - Pensa dar maior protagonismo aos que o acompanham nos órgãos sociais?
BC – A falta de protagonismo das pessoas aqui dentro não tem a ver com o sentido de ser ditador, ao contrário do que pensam. Tem a ver com proteção. Estão cá porque acreditaram em mim e as ruturas que foram necessárias fazer, quer dentro quer fora, mexeram com coisas muito importantes, muito sensíveis. Esta foi a forma de os defender, porque o Sporting não estava habituado a ter uma mensagem una e precisa. Achei que as pessoas que estão comigo não deviam ser conotadas com algumas coisas que eram necessárias fazer e essa foi a minha forma de os proteger e de demonstrar o apreço que tenho por eles. Tiveram intervenções cirúrgicas sobre as suas áreas, mas jamais os deixava travar guerras por mim.

BRUNO DE CARVALHO: «TIRAR DINHEIRO A UM CLUBE É FÁCIL E NINGUÉM NOTA»

RECORD - Pedro Madeira Rodrigues afirmou que o Sporting pagou 4 milhões de euros em comissões, na aquisição de um jogador. Podemos saber qual e em que circunstâncias isso aconteceu?
BRUNO DE CARVALHO – Devido a esse ataque, permitam-me fazer aqui um pequeno balanço: nestes quatro anos, o Sporting fez 139 milhões de euros em vendas, 57,5 milhões em compras, 7,75 milhões em comissões. Isto dá uma média, entre compras e vendas, de 3,94 por cento em cada comissão. Isto não existe. Gostava de saber qual é o clube do Mundo que tem esta média. Se quiserem ir só às vendas, são cinco por cento. Quando me candidatei li todas as atas da SAD desde a sua criação, li todos os relatórios e contas. Não sei se tem noção. A pilha de papel é maior do que você, só de atas. Agora, ele diz isso vindo dos blogues. Vamos ao Alan Ruiz. A comissão foi um milhão: 700 mil euros à Admira Partners e 300 mil a Costa Aguiar. O que ele está a somar – mas também não dá quatro mas sim 3,2 milhões – é o prémio de assinatura, no valor de 2,2 milhões. Isto está tudo publicado no jornal do Sporting, mas nem isso ele lê. Calma, no mínimo digam as coisas com conhecimento de causa.

Desde que chegámos, fazemos no ‘Jornal Sporting’, detalhadamente, os mapas todos, desde o primeiro dia. Isto é a verdadeira auditoria. Está cá tudo, treinadores e jogadores, destino, valor do contrato, custos, as comissões, termos de cedência, as observações, quando é caso disso, tudo ao mais pequeno detalhe, da equipa A e B. Não tem outro clube que faça isto, duas vezes por ano, no final do mercado de verão e no final do mercado de inverno. Nenhuma dessas comissões é de 4 milhões. Repito: em quatro anos pagámos 7,75 milhões em comissões! Esta transparência é para mim um motivo de orgulho, porque isto é o Bruno Miguel Azevedo Gaspar de Carvalho. Para mim a conta é ao tostão, porque sou apologista da máxima ‘tanto rouba um tostão como um milhão’. Sou intransigente, comigo é ao tostão. Vou dizer-lhe uma coisa: tirar dinheiro a um clube é facílimo e ninguém nota. Vou só dar dois casos: Jeffren e Labyad. Houve uma poupança média de mais ou menos 6 milhões com cada um deles. Eram dois problemas, e pergunto: se naquela altura tenho dito ‘arranjei solução para o Jeffren e para o Labyad e em cada um poupei um milhão’, qual era o sportinguista que não me batia palmas? Todos batiam. E os restantes 5 milhões?

R - Desapareciam no circuito…
BC – Percebeu? Muito fácil. Como sportinguista, isto assusta-me. Por isso, comigo tem de ser ao tostão aqui dentro. Por vezes, aqui dentro, e pode ir questionar se quiser, em pequenas coisas, quando falta um euro que seja nas contas, a pessoa tira do seu bolso só para não ter problemas comigo. Já vi pessoas tirarem quase 30 euros do bolso! A administração vai almoçar, como já aconteceu, depois de estar aqui 48 horas a trabalhar. Cada um paga do seu bolso!

R - Não avança o cartão de crédito da SAD?
BC – Não há! Se vamos ter um almoço de trabalho com alguém, claro que se paga, caso contrário não. Os sportinguistas não têm esta noção: isto é demasiado apetecível! Dou-lhe outro exemplo: nas transferências de João Mário e Slimani o Sporting pagou zero em comissões. Está a ver, outra facilidade. Se dissesse que tinha pago 5 por cento, quanto é que isso dava? Pagou zero e só isso representa muito dinheirinho para os cofres do Sporting. O facto de pagarmos 3,94 de média nas comissões e não os dez da praxe, e no Sporting nem era dez, mas 15, 20, vinte e tal… Só das vendas já seriam quase 14 milhões, isto é muito dinheiro. Para além disso, desde que aqui chegámos recuperámos passes de 37 jogadores, dos quais tínhamos uma percentagem mínima e hoje temos os 100 por cento ou perto disso. Isto também representa muito dinheiro e na altura em que vamos fazer as vendas isso reflete-se bem nas contas.

BRUNO DE CARVALHO: «RUI MORGADO SÓ DIZIA MAL DAS OUTRAS PESSOAS»

RECORD - Rui Morgado esteve nos órgãos sociais consigo, mas não o poupou na apresentação da candidatura de Pedro Madeira Rodrigues...
BRUNO DE CARVALHO – Ouvi uma coisa vergonhosa da parte de Rui Morgado. Ouvir que tivemos 32 milhões de prejuízo é intelectualmente pobre e falso. Tivemos esse prejuízo por duas semanas e para fazer os dois maiores negócios da história do Sporting em 110 anos, um clube que teve Ronaldo, Figo, Nani, Quaresma, Futre, tantos, tantos. E esta direção, das dez melhores transferências, tem quatro. Isto é motivo de orgulho tremendo. E vem dizer que por este caminho… Mas que caminho? Acabámos de apresentar 63 milhões de lucro! Chamam-lhe ‘brunista’. Por amor de Deus, não chamem ‘brunista’ a este tipo de gente. Rui Morgado foi convidado a ir embora porque andava na tribuna só a dizer mal das pessoas do Sporting. Pura e simplesmente porque ficou muito ofendido com o caso Marco Silva, que um dia ainda hei de explicar na totalidade aos sportinguistas. O senhor tomou as dores do Marco ao ponto de andar pela tribuna a incomodar toda a gente. Só fez parte desses órgãos sociais pelo meu respeito e amizade ao dr. João Sampaio. Por mim, depois do que se passou nas minhas primeiras eleições, ele não estaria cá. Houve coisas mal explicadas nessas eleições e a intervenção de Rui Morgado nesse momento nunca me caiu bem, é o máximo que quero explicar.

R - Nesse mesmo local, outro ex-vice-presidente, Vítor Ferreira, também levantou questões acerca do seu caráter…
BC – Vítor Ferreira tem uns cabelos brancos que lhe dão outra esperteza. Rui Morgado tem de comer muita papa Cerelac para chegar a ser um Vítor Ferreira, mas vai chegar lá. Vítor Ferreira foi mais inteligente, disse que estava ali por uma questão de caráter, mas por uma questão de caráter, em vez de estar a mandar recados pelo Pedro Guerra todos os programas, porque é que não diz de que forma é que saiu da SAD e do clube? Uma coisa é o que aconteceu, outra é o que permitimos que viesse a público.

R - Quer ser mais específico?
BC – Como é uma pessoa que vai ter mais intervenções nos próximos tempos, façam-lhe a pergunta a ele. Perante a resposta, direi o que tenho a dizer.

R - Está à espera de ter João Benedito como adversário?
BC – Se ele achar que reúne as características necessárias para ser candidato, acho muito bem que avance.

BRUNO DE CARVALHO: «OS OUTROS TÊM UM EXÉRCITO QUE INFLUENCIA E NÓS NÃO»

Como candidato às eleições de março, o atual presidente do Sporting alerta sócios e adeptos para a falta de militância que sente existir, sublinhando que o clube precisa do empenho de todos.

RECORD - Na mensagem de Natal que escreveu aos sócios deixou no ar a possibilidade de não se recandidatar. Por que o fez, se passados seis dias anunciou que ia a votos?
BRUNO DE CARVALHO – Sempre disse, desde o primeiro dia, que iria refletir, que o sócio Bruno de Carvalho iria estar muito atento ao que iria fazer o presidente Bruno de Carvalho. E quero lembrar que a meio do mandato fiz uma assembleia geral para ouvir os associados, porque uma coisa é termos o nosso programa eleitoral, outra coisa são as mazelas que o cumprimento desse programa, que o nosso feitio, a nossa personalidade e o nosso caráter vão provocar. Achei que as pessoas deviam pronunciar-se sobre tudo isso, porque é um feitio de denunciar o que acha que está mal, um feitio de não virar a cara à luta, e isso tem as suas coisas boas e más. A temática abordada foi mesmo essa, se este era o caminho a seguir, se este era o estilo a seguir. Não defendi nenhum dos lados e as propostas foram aprovadas por mais de 90 por cento. Defendi aquilo em que acreditava, mas não defendi que a minha forma de ver era a correta.

R - Ainda não explicou o que o levou a levantar as tais dúvidas quanto à recandidatura…
BC – O que é que entretanto senti e sinto? Que há uma falta de militância muito grande das pessoas sportinguistas com algum poder na sociedade e não vejo isso noutros clubes.

R - Sente apoio das bases mas não dos ‘barões’?
BC – Não, não estou a falar em termos pessoais, porque nunca geri a pensar em eleições. Como presidente, sinto que os outros têm um exército que se mexe e influencia e nós não. E não estou a falar daqueles mais de 40 mil que estão aqui em cada jogo. Estou a falar dos que podem ter uma intervenção pública, como presidentes de câmaras, aqueles que estão em procuradorias ou na Assembleia da República. E nem o pedia para que fôssemos beneficiados, não é disso que se trata. O que vi nestes quatro anos é que as pessoas de outros clubes que têm essa possibilidade nem verificam se o clube tem ou não razão naquilo que defende. Simplesmente têm aquela militância e não receiam assumi-la. No Sporting há esse medo e sem esse ‘exército’ é muito desgastante. Já disse que o ato de liderar é de solidão, mas não deve ser tanta. Nisto tudo sinto que ainda há um caminho a percorrer. Foram décadas em que as pessoas não se habituaram a ter esse tipo de intervenção, a defender o seu clube, a defender a razão do seu clube. É algo que, enquanto presidente, me desgasta e preocupa, porque já toda a gente percebeu que gosto de resultados rápidos. Mesmo sem esse apoio os resultados conseguem-se, mas de uma forma muito mais difícil. Traduzindo esta ideia para ‘futebolês’: o Sporting ainda não está na fase em que corre mais a bola do que os jogadores, ainda é o jogador que corre muito mais do que a bola e isso não é o futebol perfeito. Por falta de militância, estamos na fase em que corremos muito mais e a bola está quase sempre parada. São quatro anos, mas já pareço um maratonista. O Sporting precisa dessa militância para dar passos mais largos e atingir a glória.

R - Essas pessoas que diz estarem mais afastadas não serão aquelas que nos últimos 20 anos se ligaram direta ou indiretamente ao poder e que se sentiram visadas pelo processo de auditoria que a sua presidência levou a cabo?
BC – A pergunta é das mais acertadas que já me fizeram, porque acredito que tenha muita influência, mas não lhe retira a falta de militância que também não existiu nesses últimos 20 anos.

R - Provavelmente essa militância não lhes foi exigida…
BC – Mas isto não é algo que se deva exigir. Acredito que os outros clubes também não exijam nada a ninguém. Não me parece que existam pessoas pré-determinadas para andarem a telefonar a estas pessoas todos os dias. É algo que é normal, mas no Sporting não podemos achar que para sermos considerados pessoas de bem, ao sermos abordados sobre um assunto do clube do nosso coração, dizemos logo que não. E ficamos cheios de orgulho porque mostrámos a nossa independência. Mostrámos foi a nossa burrice porque das duas, uma: ou o clube tem razão ou não tem. Mas muitas vezes nem se lê para perceber o que está em causa, tira-se logo a razão quando eu sei que do outro lado é o contrário: não leem, mas o clube tem sempre razão.

R - Como ultrapassar essa questão?
BC – Esse vício da falta de militância já existia. Lembro-me, por exemplo, quando se apresentou o projeto Roquette, de uma intervenção do presidente da Câmara da altura, João Soares, em que sublinhava: muito mais do que pelo clube, o projeto destacava-se por estar a ser encabeçado por pessoas de uma credibilidade inquestionável. Parece-me que houve momentos em que tivemos todas essas pessoas mobilizadas para aquilo que era o Sporting Clube de Portugal, mas a verdade é que continuámos a ver decisões injustas para o nosso lado, mas favoráveis para outros. Essa falta de militância é congénita. Pode não ter ajudado nada o facto de eu ter cumprido a promessa eleitoral que era comum a todos os candidatos, mas essa falta de militância se calhar ajuda a perceber por que ganhámos tão pouco nos últimos 50 anos.

R - Podemos entender, então, a mensagem de Natal como um ponto de partida para chegarmos aqui: o alerta para a falta de militância?
BC – Não… Ouvi, por exemplo, o dr. Madeira Rodrigues dizer que eu fui muito importante porque criei uma rutura com uma dinastia, associado ao discurso em que dizia que com ele éramos todos iguais e íamos ser uma família. Não sei como se conjuga no mesmo discurso rutura e família. Detesto a palavra populista, bem sei que alguns a usam de uma forma simpática, referindo-se a alguém de quem as pessoas gostam, mas na maior parte das vezes é um termo utilizado para significar demagogo. Isso chateia-me, porque se há coisa que nunca fui, foi populista. Sporting necessitava de uma rutura e a mesma foi feita e depois tem as consequências que referiu na sua pergunta. Agora, pelos vistos, há sportinguistas diferentes, porque houve uma rutura com uma dinastia e esse termo dinastia foi usado de forma pejorativa; então parece que realmente há pessoas diferentes dentro do clube.

R - Se a falta de militância o ‘obrigou’ a repensar a sua posição, o que vai procurar fazer para acabar com essa situação?
BC – Acho que mesmo assim muito foi feito a esse nível nestes quatro anos. Não é fácil criar a rutura que tinha de ser criada. Penso que mesmo as pessoas que vivem de criar chavões o admitem. Os chavões são uma coisa que me irrita solenemente, nem percebem que juntando os chavões os mesmos nem fazem sentido enquanto frase ou ideia, e foi isso que senti do que ouvi [do discurso de apresentação de Madeira Rodrigues]. E tenho pena. Mas se calhar as pessoas não têm noção do difícil que foi fazer essas ruturas, essas auditorias, e mesmo assim ter a postura e a elevação com que essas auditorias foram feitas e comunicadas. O que quero dizer com isto? Desde o primeiro dia que todos sabiam que estava nas propostas eleitorais de todos os candidatos fazer-se essa auditoria. Caso se visse alguma coisa, tinha de dizer-se. Quem se cala, torna-se cúmplice. Isto é da lei. Pode dizer-me: fazia a auditoria mas não punha os processos. Não pode ser, advém da própria lei. O que fiz para unir os sportinguistas, mesmo criando a rutura? Nunca ninguém ouviu de mim o discurso da tanga, aquele em que se diz para justificar tudo: julgávamos que estávamos rotos mas estamos de tanga. Nunca me ouviram dizer que não ia fazer isto ou aquilo, por esta ou aquela razão. Ouviram-me dizer que o clube estava em pré-falência. E estava. Ouviram-me dizer que cheguei ao clube e não tinham um centavo. Ouviram. Nunca usei o passado para justificar não fazer isto ou aquilo. E isso é unir. Ninguém ligou nenhuma, ninguém quis sequer perceber. Segunda tentativa de união passou pela forma elevada como fizemos as auditorias. Fizemos um resumo e apresentámo-lo em assembleia geral, explicando que era um mero resumo e que não se podia tirar nenhuma conclusão séria sem vir ao estádio ler a auditoria por completo. Nunca me ouviram falar dessas auditorias. Tratar das auditorias como tratámos foi uma excelente tentativa de união.

R - Os visados provavelmente não o entenderam dessa forma…
BC – Se calhar houve ali um défice qualquer e se calhar foi por isso que o Sporting chegou onde chegou. Se estivesse do outro lado, no mínimo ficaria agradecido pela forma elevada com que esse assunto foi tratado. Depois ouço pessoas dizerem disparates como: mas aquelas convocatórias das assembleias gerais, onde se diz nomes, onde se diz valores... Naquela altura chamei aqui seis ou sete advogados, não só do Sporting. Perguntei-lhes: como é que contornamos estas convocatórias? Todos me disseram: está na lei, a lei refere que tem de dizer-se nomes, valores, tudo isso. Está na lei! Tentei por tudo e não era possível. Já disse isto 50 vezes e ninguém ligou nenhuma. Gostava de ter feito diferente, mas não podia ser feito e também isso é um ato de união.

Depois, a grande crítica era: não foram ouvidas as pessoas. Então, aproveitei uma ideia que achei excelente, que veio de José Eduardo Bettencourt, do Tribunal Arbitral. Levei a ideia à AG e foi aprovada. A partir desse momento lancei a escada para que todas essas pessoas aproveitassem. Estamos a falar de um tribunal onde os três juízes eram do Sporting: um escolhido por nós, outro pelo visado, mas tinha de ser do Sporting, e os dois escolhiam o presidente. Teríamos uma audiência só de sportinguistas onde até estava estabelecida a fórmula de haver essa audiência que englobava todo o universo do Sporting, de todos os quadrantes. Quem aproveitou? Ninguém. Não houve uma única pessoa que tivesse aproveitado. É mais fácil queixarmo-nos da vida do que darmos um passo em frente. Acho que quando o fiz, apanhei as pessoas desprevenidas, porque o que queriam era continuar a dizer que não tinha sido tratado dentro de casa. Para se criar uma ponte há duas margens, mas se a outra não deixa construir lá… Última coisa neste assunto: então vamos ouvi-los. Dentro do mesmo estilo que estava criado para a audição no Tribunal Arbitral. É mais uma escada, mais uma ponte. Falhou Dias da Cunha e estão a ser passadas a ata as declarações que serão anexas à auditoria. Depois, os sportinguistas poderão consultar o documento. Mais pontes, não sei como as criar.

Desde que quis ser candidato ao Sporting, passei a ser tudo. Trafulha, vigarista, demagogo, mentiroso, enfim, transformei-me em tudo aquilo que mais odeio na vida, porque odeio esse género de pessoas. Estas pessoas andavam a ser acusadas pelo universo sportinguista há 20 anos. Então não é bom que apareça alguém que diga: vamos lá ao sítio certo ver se as coisas são assim ou não. Não se importam de ser acusadas de ter roubado o Sporting, de terem delapidado o clube? E quando lhes dão a possibilidade de se defenderem, não o aceitam?

R -  Para evitar, de futuro, esse tipo de situações, não fazia sentido que a cada final de mandato o Sporting promovesse uma auditoria externa, por forma a que quem entrasse soubesse ao que ia?
BC – Acho perfeito, o único problema é que estas coisas demoram muito tempo. Neste momento não é exequível, mas acho perfeito.


A pedido de Bruno de Carvalho, esta entrevista foi dividida em duas partes: hoje pode ler tudo sobre o candidato; amanhã não perca a análise do presidente ao momento atual do leão









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