José Eduardo arrasa Marco Silva e quem fala mal do Sporting



Numa excelente entrevista ao Record (conduzida por Bruno Fernandes), José Eduardo traz a lume um conjunto de temas interessantes e mostra todo o seu Sportinguismo.

O antigo futebolista abordou processo que o colocou frente a frente com Marco Silva: confessa que foi um "entusiasta" na sua chegada, mas replica a ideia de que o projeto do Sporting não era "compatível" com o técnico.

RECORD - Foi condenado num processo contra Marco Silva, que tinha por base declarações suas nas quais o acusou de não estar comprometido com o projeto do Sporting. Hoje faria tudo da mesma forma?
JOSÉ EDUARDO – Marco Silva só me interessou enquanto esteve no Sporting. E já disse isto publicamente: desejo-lhe uma longa vida, a ele e à família. Este é um assunto apenas relacionado com o Sporting. Sempre me coloquei na posição de defender o clube e quando sinto que alguém não o faz, seja quem for – e já tivemos provas até com presidentes –, sempre fui contra essas personalidades. Quando se propalou a possibilidade de Marco Silva ir para o Sporting, fui dos mais entusiastas, seu defensor. Tentei, por todos os meios, ajudá-lo, inclusive encontrar-me com ele, para que vingasse no Sporting. Não houve, da minha parte ,qualquer tentativa de ataque pessoal a Marco Silva – pelo contrário. Mas quando tentámos reunir-nos com ele, com a ajuda do diretor geral da SAD [Augusto Inácio], e essa pessoa não só recusa como também manifesta, através de várias intervenções, que combate o projeto do Sporting, eu fiz aquilo que sempre me propus, que é defender o clube. Qual é o projeto do Sporting? Era compatível com o que o treinador do Sporting na altura estava a fazer? Não. O que é que isso significa? Que são agendas diferentes. Quando olhamos para todo o contexto onde se desenvolveu esta situação, não havia um ambiente contrário que combatia o Sporting? Fundos, os rivais, uma parte da imprensa… Havia todo um polvo que tentava asfixiar o Sporting. Senti que tínhamos dentro do clube alguém que não estava compatível com a sua agenda. Foi isso que denunciei.

R - Porque afirma que as agendas de Sporting e Marco Silva não eram as mesmas?
JE – Começa no princípio da época [2014/15], na Corunha, num jogo particular, onde há um determinado jogador [refere-se a Marcos Rojo] que tenta agredir o presidente do clube na presença do treinador e o treinador sai por uma porta a dizer que nada tinha a ver com isso.

R - E como chegou este episódio até à via judicial?
JE – A partir de janeiro de 2015 nunca mais falei e fui provocado ‘ene’ vezes. Se vou a tribunal e voltamos a falar desta temática não foi por minha culpa. Na primeira sessão, a declaração de Marco Silva perante a imprensa é de que ‘ele quer destruir a minha carreira’. Isso é um julgamento popular e de caráter em relação a mim. Eu comprometi-me a não falar.

R - Por que adotou essa postura?
JE – Porque me comprometi perante o Sporting. Houve um compromisso da minha parte, da parte do Sporting e da parte do Marco Silva de não se falar mais. Quem é que rompeu esse compromisso? Foi o Sporting? Não. Fui eu? Não.

R - Quer revelar mais pormenores sobre esse compromisso?
JE – O objetivo era estabelecer a paz e emitir dois comunicados: um do clube e outro da SAD, ambos antes do jogo com o Estoril [3 de janeiro]. O comunicado do clube dizia que o clube não se responsabilizava pelas palavras e atitudes dos seus sócios; quanto ao segundo, e por imposição de Bruno de Carvalho, ficou agendado para depois do jogo, para depois da conferência de imprensa, com o compromisso de nunca mais se falar sobre o assunto. Chegou-se ao flash e Marco Silva esqueceu-se do compromisso e falou sobre o processo. O comunicado já não saiu. O comunicado eram as pazes feitas e 15 dias depois colocou-me um processo.



R - Como viu o facto de, como diz, Marco Silva não ter cumprido com o acordado?
JE –É um comportamento que vem ao encontro do que aconteceu depois do encontro com o Nacional, com o que disse, atacando a direção; e o jogo com o V. Guimarães, em que infringe o blackout determinado pelo clube e diz que sente o apoio dos adeptos e dos jogadores e que está na hora de respeitar os adeptos do Sporting, que todos os dias sentem coisas que não são agradáveis. E também que se importa com o que têm passado nas últimas semanas, sobretudo na última. Isto é o quê? É um ataque a quem? Isto é público e foi dito.

R - Falou no facto de Marco Silva o acusar de querer destruir a sua carreira. Quer aprofundar?
JE – Nunca o quis destruir como treinador, tanto que nunca mais falei. Depois de todo o episódio, continuou a sua carreira no Sporting, reforçado, e, ao contrário daquilo que se propalou, quem ficou mal visto fui eu. Ajudou o Sporting a ganhar uma Taça de Portugal e chegou a acordo para a rescisão, recebendo uma indemnização. No Olympiacos esteve um ano e segundo vem na imprensa saiu por falta de compromisso, a mesma coisa de que foi acusado no Sporting. Depois disso, continuou a sua carreira e não vão com certeza dizer que fui eu o culpado de ele ter ido para a melhor liga do Mundo.

R - Sente que a sua declaração inicial foi mal interpretada?
JE – Não. O contexto era completamente diferente. Na altura, a simpatia que o treinador do Sporting tinha junto das massas era enorme, era esmagadora. Mas simpatia não significa que se tenha razão ou que se seja mais verdadeiro. Vejamos: na questão do tribunal, foram arroladas por Marco Silva oito testemunhas e só uma é que é do Sporting. Da minha cinco, todas do Sporting. Tentou tornar-se o processo mediático. Até pela escolha das testemunhas. Das 13, só duas conheciam os factos: Inácio e Virgílio, diretor geral da SAD e diretor da Academia. Em tribunal disseram: ele [José Eduardo] não só disse a verdade como disse pouco.



RECORD - Que efeitos teve o processo na equipa de futebol?
JOSÉ EDUARDO – Não foi prejudicial tanto que continuou. Não cumpriu o objetivo de ser campeã, mas cumpriu o da Taça de Portugal. E ao contrário do que se propalou, era uma excelente equipa. Nunca falei nisto. Marco Silva tinha à sua disposição seis futuros campeões europeus: Rui Patrício, Cédric, William, Adrien, João Mário e Nani. Depois tinha Slimani e Montero. E tinha o Carrillo do Sporting... Depois tinha o Jefferson e como centrais Paulo Oliveira e Maurício. Esta equipa não prestava? Ganhámos a Taça de Portugal nos últimos 10 minutos porque o Sérgio Conceição adormeceu, convencido de que estava no papo. Eu estava lá no estádio [Nacional] e festejei.

R - Jesus é a pessoa certa para o lugar de treinador?
JE – O que esteve em causa nas eleições? Bruno de Carvalho e Jorge Jesus. Os sportinguistas disseram: nós queremos Bruno de Carvalho e Jorge Jesus. Não foi só Bruno de Carvalho, porque Madeira Rodrigues, o outro candidato, colocou o foco também em Jesus. Os sportinguistas mostraram que confiam e que acreditam nesta dupla. Se vai conseguir – eu estou convencido que sim – ou não o êxito? Ninguém pode prever o futuro.

RECORD - Foi um dos conselheiros leoninos que tomou posse no dia 15, numa cerimónia na qual Bruno de Carvalho vincou necessidade de voltar "a fazer os sportinguistas felizes" neste mandato. Que comentário lhe merecem estas palavras?
JOSÉ EDUARDO – A tomada de posse, seja para que cargo for, num clube como o Sporting, é uma honra para quem beneficia dessa ação. Penso que Bruno de Carvalho foi sincero: quando se é eleito como dirigente, é para dar cumprimento ao desígnio, que é dar felicidade aos sócios.

R - E quanto à intenção de ser campeão "mais do que uma vez"?
JE – É uma ideia que pode ser entendida como motivadora, mas as pessoas ao ouvirem essa ideia do presidente do clube têm de entender que é só isso, motivadora. Temos de contar com as nossas forças, mas também com os nossos adversários que são tão poderosos como nós.

R - Como avalia o primeiro mandato de Bruno de Carvalho?
JE – A equipa está mais preparada, sem dúvida, mas os desafios são diferentes. Houve o cuidado de se manter a equipa, premiando a sua dedicação. Está mais experiente, confiante e conhece os cantos à casa. Nessa perspetiva penso que o Sporting estará bastante mais forte.




R - Que diferenças encontra no Sporting antes e depois da primeira eleição de Bruno de Carvalho?
JE – O Sporting retomou o seu lugar e isso deve-se à equipa que Bruno de Carvalho tem liderado. Esse era o primeiro grande objetivo, a reconquista do nosso lugar. O outro era fazer, tal como Bruno de Carvalho disse, os sportinguistas felizes. Para o conseguir, tem de ganhar títulos, nomeadamente no futebol.

R - Para além das questões estruturantes ao nível do futebol, o que considera que ainda falta ao Sporting? Bruno de Carvalho falou, por exemplo, da questão da militância.
JE – Se estivermos atentos ao atual Conselho Leonino, percebemos que houve a preocupação de dotá-lo de personalidades que abarcam diversas áreas e que têm influências nalgumas partes da nossa sociedade. Há, de facto, a necessidade que o clube se torne mais marcante em alguns nichos. O que Bruno de Carvalho pede é que as pessoas que se dizem do Sporting se envolvam mais. Uma obrigatoriedade para quem diz que gosta do Sporting.

R - O presidente do Sporting também afirmou que quer ganhar, mas não a qualquer custo...
JE – Essa foi a nossa história nos últimos anos, antes da entrada de Bruno de Carvalho. Chegámos, porém, à conclusão que essa correção e essa civilidade são coisas a manter, pois não podemos baixar determinados níveis. Mas é um facto: não temos hipótese nenhuma se formos para uma guerra em que os nossos adversários andem com bombas atómicas e nós com fisgas. São quimeras, é algo Romântico.

R - Também passa pelo comentário desportivo, no qual participa?
JE – É preciso saber colocar as pessoas nos sítios certos. Existem dois, três comentadores que quanto a mim ultrapassam as fronteiras da decência desportiva: Pedro Guerra, André Ventura e, de uma forma diferente, mais amenizada, Rui Gomes da Silva. É mais um provocador. Falo com imensos benfiquistas que não se reveem nessa postura.


Comentários

Enviar um comentário