A cartilha e os 'cartilheiros', por Rui Santos



Quando comecei a minha actividade jornalística há mais de 40 anos, primeiro como ‘colaborador’ (era assim que se chamava) e depois como profissional, havia um contacto directo com os protagonistas do jogo. Podíamos falar com os jogadores e os treinadores, e eram os dirigentes e presidentes que se manifestavam mais inacessíveis. Havia menos informação desportiva, ainda não tinha eclodido este fenómeno da internet que veio alterar, radicalmente, as nossas vidas (para o bem e para o mal), e os jornais conseguiam ser diferentes uns dos outros, porque cada qual – dependendo da argúcia do jornalista e da disponibilidade evidenciada, sobretudo, por jogadores e treinadores – publicavam o produto daquilo que conseguiam alcançar. O jornalista quase tinha acesso à porta do balneário, podia combinar entrevistas fora das instalações dos clubes, tudo com conhecimento oficial mas com respeito pela liberdade de cada um dos intérpretes e quem ganhava era o ‘consumidor final’ – os leitores, neste caso vertente. As entrevistas eram abertas e ‘disputadas’ e cada qual se responsabilizava por aquilo que fazia e dizia. Outros tempos e, nesse aspecto, melhores tempos, sem dúvida.

Este relacionamento foi-se perdendo a partir da década de 80, com agudização na década de 90, com origem na aproximação ao momento da generalização da imprensa (desportiva) diária, as conferências de imprensa foram ganhando espaço, a liberdade dos jornalistas foi-se tornando cada vez mais escassa e os jogadores, principalmente, mas também os treinadores (embora um pouco menos ‘escravizados’) são tratados como se não tivessem capacidade para gerir os seus próprios tempos de intervenção e aquilo que efectivamente pensam. Não foi culpa dos chineses, mas entretanto temos assistido aos descarregamento em quantidades inusitadas de pés-de-microfone e de várias ferramentas de controlo do pensamento livre, em forma de spins, assessores, coordenadores de cartilhas (para ser actual), etc., etc. Qual é a consequência? Uma dramática artificialidade, protagonistas plastificados e com chips encrustados, tudo em nome da ‘organização’ e do ‘pensamento único’, tudo em ambiente mui democrático mas também mui vergonhoso. Querem maior prova de inconstitucionalidade do que a lei da rolha que os clubes impõem aos seus jogadores?!…

Este ‘caso da cartilha’ é um sinal dos tempos, mas é também um sinal claro de como funciona o ‘teatro de operações’. Os clubes de futebol são talvez as organizações que mais depressa destapam as fragilidades do ser humano. Pelo que dão e pelo que fingem dar. E só se colocam nesse patamar – de patrocinadores do ‘pensamento único’ e organizado, nesta caso por Carlos Janela, que parece ter uma empresa para servir os seus clientes (palavras do próprio) – porque conseguem arranjar gente capaz de aceitar protagonizar esses infelizes papéis. Não venham eles dizer, agora, que se trata de um mecanismo natural, que pressupõe uma alta visão do que é a comunicação moderna, porque se assim fosse não teriam desmentido mais do que uma vez os rumores de que isso estava a acontecer. Havia uma percepção pública, sempre negada pelas partes envolvidas. O que significa que ninguém se sentia confortável nesse papel. Por alguma coisa seria.

Nos zappings televisivos era possível verificar com alguma constância os adeptos dos clubes/"comentadores" a questionar os seus interlocutores sobre a origem das mensagens. Quem é a melhor marioneta – és tu ou sou eu? Se este ‘joguinho’ fosse assumido pelos espadachins e se o coordenador dos espadachins não se quisesse fazer passar por ‘livre e independente’, ficando agora de apurar os réditos desta operação, podíamos concordar ou discordar com o artifício, mas pelo menos era assumido de uma forma transparente. Assim é uma fantochada.

O campeonato está ao rubro, parece valer tudo para enfraquecer o adversário, Benfica e FC Porto estão agora superactivos, com o Sporting a correr por fora, mas claramente a posicionar-se, neste momento, do lado do FC Porto.

É tudo muito lamentável. O futebol em Portugal alcançou o estado de paranóia. O aparecimento das direcções de comunicação, dos spins e dos ‘cartilheiros’ pioraram, nos tempos mais recentes, um ambiente futebolístico já de si muito poluído. Ninguém respeita ninguém e as marionetas até se acham… heróis.

NOTA – No meio disto tudo até se perdeu o impacto do excelente jogo que o Estoril realizou, a meio da semana, no Estádio da Luz.




Comentários

  1. rui santos fala dos assuntos sempre pela rama... e claro sem nomes.

    a semana está a correr muito mal em "comunicação" e "gestão da comunicação". Todo o edifício da propaganda lampiã ficou destruído neste fogo que ainda arde.

    Falta a outra parte que são os estranhos negócios do jorge mendes.

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  2. Este pseudo isento Rui Santos continua a tentar ligar o Sporting e tudo o que de mal acontece no futebol português e que tem geralmente a assinatura dos lampiões.

    Vejamos, a cartilha é exposta e de imediato Rui Santos surge na SIC Notícias condenando esta mas dizendo que os comentadores do Sporting também devem ter uma, referindo ainda que os do Porto não têm (???)...

    Repare-se ainda como em todo este texto não há um ataque frontal ao Benfica mas sim um puxar de Porto e Sporting para a chafurdice em que movem os lampiões.

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