Remontada épica com aroma uruguaio



O jogo começou como se esperava, o Tondela não foi aquele clube que só fez sete faltas contra o benfica. Aos cinco segundos de jogo já uma perna de um jogador do Sporting conhecia o sabor de uma chuteira de um jogador do Tondela. E a toada foi-se mantendo, acabando com vinte e quatro faltas.

A história do jogo é muito mais do que as faltas marcadas e sofridas e o Sporting entrou em campo um pouco inibido, talvez fruto do esfoço adicional de Quinta-feira e de uma viagem de mais de dez horas de regresso a Portugal. É inevitável aceitar que o Tondela entrou, portanto, melhor no jogo e conseguiu um relativamente merecido golo. O Sporting soube fazer das fraquezas forças e foi para cima do Tondela, conseguindo o empate ainda antes dos trinta minutos. Até ao final da primeira parte fomos somando oportunidades atrás de oportunidades mas a bola acabava por não entrar. A dinâmica ofensiva do Sporting fez o público desejar que o intervalo não chegasse e era melhor que não tivesse chegado mesmo.

A prova que eu nunca poderia ser treinador é não entender a substituição de Montero por Doumbia ao intervalo. Montero jogou como uma espécie de “trequartista” e foi responsável, em conjunto com Bas Dost, pelas melhores manobras ofensivas da equipa. Na segunda parte, o Sporting voltou a entrar com alguma dificuldade no controlo do jogo e num, acto irreflectido, Capela não perdoou e mostrou o segundo amarelo a Mathieu por colocar a mão no rosto de um adversário e aqui entraram em jogo duas coisas importantes: a diferença entre equipas e a diferença entre treinadores.

Jorge Jesus sabe bem quão excepcional William é e pediu-lhe o esforço adicional de fazer dumas posições em campo, central e trinco. William assim o fez e o Sporting raramente se sentiu com um jogador a menos. Pepa, por seu lado, deixou que a sua arrogância condenasse o meio-campo do Tondela à inexistência ao reforçar o ataque. O Sporting não só nunca esteve em risco de perder o jogo, mesmo com menos um, como acabou por o ganhar. Mérito para os jogadores e para o treinador que contra todas as adversidades trouxeram a vitória de um terreno muito difícil.

Jogadores

[7] Rui Patrício - Fez o que pôde no lance do 1-0 mas era muito difícil impedir que a bola entrasse. Ainda assim manteve o Sporting vivo no jogo ao fazer um par de defesas que impediram o Tondela de se voltar a adiantar no marcador.

[6] Piccini - Não foi um dos seus jogos mais felizes mas foi bastante solidário a defender, ajudando a equipa nos momentos de maior aperto. Ofensivamente fez um par de bons cruzamentos mas hoje não era a sua noite.

[7] Coates - Não começou o jogo da melhor maneira. Pareceu nervoso ou desgastado e isso fez-se notar no corte ineficaz que permite ao Tondela adiantar-se no marcador. Melhorou muito com a expulsão de Mathieu(!) mostrando-se capaz do melhor ao marcar o tento vitorioso já em cima do final do jogo.

[5] Mathieu - Um erro infantil num jogo praticamente perfeito até ao momento justificam a nota relativamente baixa. Na primeira parte dispôs de duas boas oportunidades para marcar mas acabou expulso por colocar a mão na face de um jogador do Tondela. Um erro normal num jogo normal mas num jogo arbitrado por João Capela não se deve correr este tipo de riscos.

[6] Bruno César - Competente a defender, voluntarioso quando se juntou ao ataque. O jogo precisava que desse um pouco mais de si.

[8] William Carvalho - Não marcou mas teve participação decisiva na reviravolta ao fazer o passe de quarenta metros para a cabeça de Bas Dost que está na origem do 1-2. Com o Sporting reduzido a dez, é William (e Acuña) quem se desmultiplica entre o meio-campo e a defesa para que nunca se note a inferioridade numérica.

[7] Bruno Fernandes - Apesar do oito na camisola, o dez é a sua posição ideal. Em jogos físicos perde-se nas batalhas e é difícil tirar partido das suas qualidades técnicas. Ainda assim, Bruno Fernandes não se rende e transforma o jogo para melhor sempre que a bola para pelos seus pés.

[8] Gelson Martins - Craque da cabeça aos pés. Depois da lesão parece estar de volta à sua melhor forma com dezenas de ataques conduzidos durante o jogo. Continua é a ser a vítima preferida dos pitons adversários. Com arbitragens decentes, expulsaria um adversário por jogo.

[9] Acuña - Um nove parece sempre uma nota exagerada mas que tipo de reconhecimento merece quem deixa tudo em campo, faz uma assistência e é obrigado a fazer o corredor esquerdo inteiro três dias depois de um jogo duríssimo em Astana? Acuña mesmo quando não está nos seus dias é importante em campo. Sabe ganhar ressaltos, não dá uma bola por perdida e cruza como poucos cruzam em Portugal.

[6] Fredy Montero - Montero estava a ser o "trequartista" que Alan Ruiz nunca conseguiu ser. Fez um punhado de passes a trinta/quarenta metros em saídas para contra-ataque que mereciam melhor sorte. Talvez por o jogo se estar a ameaçar tornar mais físico e directo, Jesus o tenha tirado ao intervalo. Montero é o jogador ideal para jogar ali quando Bruno Fernandes é oito.

[8] Bas Dost - Chegou, viu e marcou. Fez passes de primeira como se fosse um verso da canção Pinball Wizard dos The Who. Bas Dost é sinónimo de golo, mas não só. Em cima dos últimos segundos, saltou bem alto e meteu a bola ao alcance de Coates para o golo da remontada.

[5] Doumbia - Entrou ao intervalo para o lugar de Fredy Montero mas não foi feliz. Não creio que seja incompatível com Bas Dost mas é claro que ainda não existe entrosamento entre os dois. Teve na sua cabeça a oportunidade do 1-2 mas a bola acabou por sair ao lado da baliza.

[6] Rúben Ribeiro - Tentou ser o abre-latas de que o jogo estava a precisar. Combinou bem com Acuña no flanco esquerdo, deixando boas indicações de que poderá ser ainda muito útil nesta época ao Sporting.


Arbitragem - 5

Árbitro - João Capela
Árbitros Auxiliares - Ricardo Santos e Paulo Brás
Quarto Árbitro - Carlos Espadinha
VAR - Bruno Esteves e Rui Teixeira

O árbitro foi João Capela e isso raramente é bom sinal para o Sporting. Começou por não ver uma grande penalidade claríssima sobre Mathieu logo aos trinta e sete minutos. Na primeira parte deu um minuto de desconto que não chegou a ser concluído pois o Sporting ganhou um canto aos cinquenta segundos desse minuto e João Capela escolheu fechar a primeira parte sem marcar o dito canto. É este tipo de decisões que vai pesando numa época com muitos jogos na cabeça dos jogadores. Ver mais uma oportunidade de golo ser mandada pelo ralo.

Na segunda parte não perdoou a expulsão a Mathieu e, em abono da verdade, aceita-se a decisão apesar do critério não ser uniforme porque caso fosse Marega tinha sido exposto por meter um dedo no olho de Coentrão há duas semanas. Aos 73 minutos de jogo, mais uma grande penalidade que fica por marcar, desta vez de Ricardo Costa sobre Coates

Os quatro minutos de compensação dados inicialmente pareceram curtos para tanto anti-jogo por parte do Tondela e com um jogador extendido no chão por mais de dois minutos, Capela decidiu e bem alargar o tempo extra em mais três minutos, avisando para isso os dois bancos. Uma atitude que me pareceu adequada.

Apesar de baixa, nota positiva para a equipa de arbitragem por não ter cedido ao anti-jogo da segunda parte.


Reacções

"Estas são vitórias de carácter, de jogadores e de equipas que acreditam até ao último minuto. Para seres campeão tens de ter esta mentalidade. Muitas das vezes, e hoje foi o caso, o conteúdo técnico não é o mais importante, mas sim perceber o que se está a passar no campo e a forma como se pode chegar ao golo. Foi isso que fizemos.", Jorge Jesus




After Match

Contra o Sporting, toda a gente tem vontade de jogar e falar sobre tudo. Na sala de imprensa apareceu o presidente do Tondela, assumido benfiquista, com uma fotografia de uma perna de um jogador que alegadamente sofreu uma falta de William Carvalho. São figuras ridículas atrás de figuras ridículas. Pode o Tondela queixar-se da arbitragem tendo jogado contra dez mais de meia-hora?

A azia nas capas dos jornais hoje de manhã é épica. E continua a ser triste ver um subdirector de um jornal que devia ser de referência a tentar gozar o prato. Felizmente nós sabemos porque o faz. É que pode voltar a ter direito a bilhetes para o "seu" Barcelona "de graça". Não deve ter sido um fim-de-semana nada fácil para esses senhores. Mas que assim continue: Eles com a azia, nós com os três pontos. Quinta há mais!


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