Público expõe entregas de 225 mil em dinheiro a Luís Duque e Luiz Andrade



Paulo Curado, jornalista do Público, volta a publicar mais um artigo onde expõe a podridão do futebol português. Desta vez, uma auditoria revela entregas de 225 mil euros em dinheiro de Luís Duque e Luiz Andrade.

O antigo presidente da Liga e ex-assessor da SAD do Desp. Aves terá ordenado destruição de registos contabilísticos. Auditoria revela que algumas práticas em 2017-18 violam a lei sobre o branqueamento de capitais e dá conta de entregas na tesouraria de 225 mil euros em numerário.

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Luís Duque, antigo presidente da Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP), é acusado de ter ordenado que se queimassem documentos contabilísticos na SAD (Sociedade Anónima Desportiva) do Desportivo das Aves, antes de o clube ingressar na I Liga. Segundo uma auditoria independente às contas da sociedade da temporada 2017-18, a que o PÚBLICO teve acesso, o advogado terá ainda recebido na sua conta uma transferência não justificada de 40 mil euros dos avenses, para além de ter efectuado, com Luiz Andrade (na altura presidente da SAD), depósitos em dinheiro na tesouraria da sociedade de 225 mil euros.

Inicialmente, quando chegou ao Desp. Aves, foi divulgado que iria assumir a direcção desportiva, mas o próprio encarregou-se de esclarecer que era apenas advogado e conselheiro dos investidores chineses e de Luiz Andrade. Na realidade, as funções de Luís Duque eram pouco claras, mas iriam muito para além dos aspectos de natureza jurídica, segundo sugere a auditoria.

No final da temporada de 2016-17, quando o Desportivo das Aves assegurou a subida ao principal escalão profissional do futebol nacional, Duque terá dado instruções para serem destruídos e queimados os registos de caixa da SAD. De acordo com a auditoria, realizada pela sociedade de revisores de contas Marques de Almeida, J. Nunes, V. Simões & Associados, este registo foi posteriormente interrompido, deixando de haver um sistema de controlo interno dos fluxos de caixa.

Segundo a auditoria, entre Agosto e Dezembro de 2017 verificaram-se entradas em numerário para as quais não se consegue apurar a origem dos montantes. Existem ainda saídas de valores, alguns significativos, sem registo e sem qualquer reflexo na contabilidade.

Durante a temporada 2017-18, de acordo com a auditoria, Luís Duque terá desempenhado funções de assessoria e apoio à administração da SAD nos mais diversos níveis. O advogado emitiu à SAD do Desp. Aves sete recibos verdes, entre 26 de Setembro de 2017 e 29 de Maio de 2018, por “serviços jurídicos”, no valor total de 22,5 mil euros.

Sem qualquer explicação, foram também transferidos para a sua conta 40 mil euros, debitados na conta da SAD no Banco Santander Totta, com a data de 4 de Julho de 2017. Uma transferência assinada por Luiz Andrade e por Armando Silva. O que sugere, no entender dos auditores, indícios de utilização indevida de fundos dos avenses.

Os auditores encontraram também dois registos de caixa de depósitos em dinheiro, descritos como tendo sido realizados por Luís Duque e Luiz Andrade, num total de 225 mil euros. O primeiro, de 150 mil euros, com a data de 18 de Dezembro de 2017; o segundo, de 75 mil euros, dois dias depois. No relatório é dada como desconhecida a origem de tais montantes, mas Luís Duque e Luiz Andrade têm explicações distintas.

Já Luiz Andrade, apesar de garantir não se “recordar” destas entregas em dinheiro na SAD, admite que as possa ter feito. Assim como outras, ocasionalmente. “Se eu depositei dinheiro em numerário no Aves é porque alguém me deu. E se alguém me deu dinheiro para depositar foi o accionista [Galaxy Believers, liderada por Wei Zhao, actual presidente da SAD], não foi mais ninguém. O Luís Duque também não se recorda de ter feito qualquer depósito”, afiançou ao PÚBLICO.

Depois procurou explicar por que razão seriam feitas essas entregas em dinheiro vivo. “Muito do dinheiro que entrava no Aves da parte do accionista da Galaxy [Wei Zhao] não passava pelas contas da SAD, porque elas estavam penhoradas e nós tínhamos medo de o meter lá. Mas tudo era contabilizado. Devido aos problemas do Aves, muitas vezes, ao início, quando entrei na SAD, tínhamos de levantar dinheiro da conta da Galaxy para pagar aos fornecedores directamente em numerário. Por vezes, pagava também assim aos jogadores. Aconteceu muitas vezes”, admitiu. E reitera: “Se calhar, ele [Wei Zhao] pediu-me para o entregar na tesouraria do Aves uma ou outra vez, o que é normal. Mas o dinheiro era dele”.

As irregularidades no sistema de controlo interno de caixa, nomeadamente o tipo de recebimentos e pagamentos descritos anteriormente, sem documentação ou suporte legal, constitui um crime punível por lei. Isso mesmo está configurado no Artigo n.º 63-E da Lei Geral Tributária sobre pagamentos em numerário e na Lei nº 89/2017, de 21 de Agosto de 2017, relativa à prevenção da utilização do sistema financeiro para efeitos de branqueamento de capitais ou financiamento do terrorismo, como alerta a auditoria.

A amizade entre Luís Duque e Luís Filipe Vieira já é antiga e foi com o total apoio do presidente do Benfica que o jurista foi eleito para a direcção do organismo que gere as competições profissionais. Os dois juntam-se com alguma regularidade e encontraram-se também numa viagem à China, a meio de Dezembro de 2017, quando Duque já estava ao serviço do Desp. Aves e era advogado da empresa de capitais maioritariamente chineses Galaxy Believers.

Luís Duque admite ter estado com Luís Filipe Vieira em Pequim nesta altura, numa viagem que diz ter sido feita em nome de uma empresa de capitais chineses com negócios em Portugal (da qual não quis especificar o nome, por motivos de sigilo profissional) relacionada com patrocínios. “Estava lá o Vieira como eventual interessado no patrocínio. Estive numa reunião e mais nada.”


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